Um dos erros mais comuns dos empreendedores é misturar as contas pessoais com as da empresa. Neste artigo, mostramos como fazer a separação correcta e por que isso é essencial.
Os Riscos de Misturar Contas Pessoais e Empresariais
A mistura de contas pessoais e empresariais é um dos hábitos mais destrutivos na gestão de PMEs. Os seus efeitos são insidiosos: começam como uma pequena conveniência — ‘uso o cartão da empresa para o jantar de família e depois acerto’ — e progressivamente tornam-se impossíveis de gerir.
Os riscos são múltiplos. Do ponto de vista fiscal, a mistura de contas torna impossível calcular o lucro real da empresa e pode gerar problemas com a Autoridade Tributária. Do ponto de vista financeiro, impede qualquer análise séria do desempenho da empresa. Do ponto de vista legal, pode comprometer a separação entre o património pessoal e o empresarial.
O problema mais imediato é que, sem separação de contas, o empresário não sabe se a empresa está a lucrar ou se é ele que está a subsidiar a empresa com as suas finanças pessoais — ou vice-versa.
Passo a Passo para Separar as Contas
- Abra uma conta bancária exclusiva para a empresa, se ainda não tiver. Todas as receitas da empresa devem entrar nessa conta; todos os pagamentos da empresa devem sair dessa conta.
- Cancele ou limite o uso de cartões da empresa para despesas pessoais. Se necessário para controlo, tenha um cartão empresarial apenas para despesas claramente operacionais.
- Defina o seu pró-labore mensal (ver secção abaixo) e faça uma transferência regular da conta da empresa para a sua conta pessoal. Esta transferência é o único canal legítimo de retirada de dinheiro para uso pessoal.
- Registe todas as despesas. Se por algum motivo usar dinheiro pessoal para uma despesa da empresa, registe como empréstimo da pessoa para a empresa e reembolse-se formalmente.
- Reveja mensalmente a conta bancária da empresa e identifique qualquer transacção que não seja claramente empresarial.
O Que é Pró-labore e Como Definir
O pró-labore é a remuneração do sócio pelo seu trabalho na empresa. É diferente dos lucros — que são distribuídos com base na participação societária — e deve ser tratado como qualquer outro salário da empresa.
Para definir o pró-labore, comece por identificar o valor de mercado do trabalho que realiza. Se não existisse como sócio, quanto custaria contratar alguém para fazer o mesmo trabalho? Esse é o piso do seu pró-labore.
O pró-labore deve ser sustentável para a empresa: se a empresa não consegue pagar o pró-labore definido, isso indica que ou o valor está acima das possibilidades actuais da empresa, ou a empresa tem um problema estrutural de rentabilidade.
| Definir um pró-labore fixo e transferi-lo regularmente é o acto mais simples de higiene financeira que um empresário pode adoptar. Custa zero e transforma radicalmente a clareza na gestão financeira da empresa. |
Como Registar Retiradas de Dinheiro
Além do pró-labore, podem existir outras formas de retirada de dinheiro da empresa: distribuição de lucros no final do período, reembolso de despesas pessoais pagas com dinheiro próprio, e empréstimos da empresa ao sócio (que devem ser formalizados e devolvidos).
Cada uma destas retiradas deve ser registada com data, valor, e natureza. Num sistema simples de folha de cálculo, basta uma linha por transacção. O importante é que nunca exista dinheiro que ‘desapareceu’ da empresa sem registo — mesmo que seja dinheiro que saiu para o próprio empresário.
Este registo não é burocracia. É a diferença entre saber se o negócio é rentável e viver na ilusão de que está tudo bem enquanto o capital da empresa se dilapida silenciosamente.




